Coluna - Marcos Visnadi: "A puta que pariu", 21/07/2008

21/07/2008

A puta que pariu

Assumindo a representação como uma atividade de tempo integral

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Dercy Gonçalves não achava lá muito certo isso de homem com homem, mulher com mulher. A gente poderia mesmo dizer que Dercy era homofóbica e que seu humor era muitas vezes um jeito descontraído de perpetrar violências e estigmatizar homossexuais. Humoristas, com raras exceções, costumam fazer isso, não é mesmo? Quem passou a infância vendo os programas e os filmes de Renato Aragão e dos Trapalhões sabe que piadas de “bichinha” são um jeito fácil e cruel de fazer rir no mais infantil dos roteiros humorísticos.

Travestida de plumas e paetês, assumindo a representação como uma atividade de tempo integral, Dercy não via contradição nenhuma em, aceitando a natureza (sua única religião, segundo ela), refutá-la quando bem entendesse. Não via contradições em — com 80 anos de carreira artística, cercada por viados e invertidos — fazer cara de nojo e espanto quando perguntada sobre homossexualidade (ou qualquer coisa do tipo). Aliás, Dercy parecia não ver contradições em nada. Ano passado, quando completou 100 anos de idade, foi homenageada com drag queens pela Le Boy, boate do Rio. E não só apareceu como cantou, dançou e gostou.

Se a gente quisesse, seria muito fácil taxar Dercy de homofóbica, tão fácil quanto é ser taxado de homossexual, gay, viado ou qualquer outro desses rótulos. É da natureza dos rótulos ser fácil e é para isso que nós os utilizamos. Seria igualmente fácil taxar Dercy de simpatizante, pró-gay ou qualquer coisa assim, já que ela também disse coisas como: “Adoro eles. Se querem dar o cu, o problema é deles. Tive grandes amigos gays. Trabalhei durante anos com o Luiz Carlos que era gay assumido, fui amiga de Madame Satã. Amiga não, eu a conhecia dos Cabarés da Lapa e ela me respeitava muito.” Assim como foi fácil para a Le Boy taxar Dercy de diva e ganhar uns trocos a mais.

O humor de Dercy Gonçalves era em grande parte resultado da apropriação e da destruição desses rótulos. “Eu represento o dia inteiro”, ela disse, e queria mesmo confundir: “Eu não estou inventando, algumas coisas eu estou cortando no meio, termino, termino e invento e invento.” Tendo sofrido a vida inteira violências por ser negra e loira, puta e casta, atriz sincera, ela não se deixou convencer pelas facilidades. “Me xingavam, me esculhambavam, me desmoralizavam, mas eu nem sentia, porque não era.” O que as pessoas esculhambavam era um papel que ela interpretava, e não havia nada além disso. Seu trabalho foi a constante afirmação da possibilidade de vida nos papéis que interpretamos, sem estagnação, sem facilidades. E de preferência no escracho.


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