No século IV a. C., havia na cidade de Tebas um forte exército, inclusive responsável por derrotar o exército espartano (o do filme “300” , lembram?). Para tanta audácia, Tebas contava com uma tropa de elite chamada o Batalhão Sagrado. Esse batalhão era formado por 150 pares de amantes, totalizando 300 homens.
Eles eram temidos por sua bravura coragem e ferocidade. Além da disciplina militar rigorosa, o Batalhão Sagrado contava com mais um elemento determinante e fundamental para as suas seqüentes vitórias: cada soldado tinha um amado, formando pares de 150 homens, e, portanto, na batalha lutava não apenas pela honra de Tebas, mas principalmente pela vida do amado.
Referindo-se a esse batalhão, Platão faz a seguinte afirmativa em O Banquete:
Se houvesse maneira de conseguir que um estado ou um exército fosse constituído apenas por amantes e seus amados, estes seriam os melhores governantes da sua cidade, abstendo-se de toda e qualquer desonra… Pois que amante não preferiria ser visto por toda a humanidade a ser visto pelo amado no momento em que abandonasse o seu posto ou pousasse as suas armas… Ou quem abandonaria ou trairia o seu amado no momento de perigo?
Hoje, em pleno século XXI, vivemos em uma cultura que “arrota” arrogância ao passado na crença de termos evoluídos. A afirmativa de evolução, além do darwinismo vergonhoso do século XIX, se sustenta por meio das diversas descobertas no campo da biologia, engenharia, filosofia, sociologia, enfim, se sustenta no avanço da ciências e da tecnologia, e nas relações humanas, avançamos?
No domingo, 1º de junho, a revista Época publicou uma matéria de capa sobre um casal de amantes, ambos soldados das Forças Armadas Brasileira, que assumiram publicamente terem um relacionamento afetivo há 10 anos. Não cabe repetir as informações aqui, pois o leitor provavelmente sabe melhor do que eu sobre o assunto. Mas a situação me despertou dois pontos que gostaria de observar.
Primeiro, identificar as relações entre os amantes do Batalhão Sagrado como relações homossexuais seria no mínimo anacronismo, visto que o termo homossexualismo foi cunhado no final do século XIX e desde então incorporou normas e valores que nos diferenciam bastante dos tebanos. A homossexualidade está inscrita em um contexto capitalista e cristão, com isso, marcamos uma enorme diferença entre nós e os amantes do Batalhão Sagrado. Contudo, há uma coisa em comum entre ambas culturas, a afetividade entre homens, o que não necessariamente era comum em outros povos da mesma época (algumas culturas da época inclusive abominavam a relação afetiva entre homens). Porém, o que para os tebanos tornara-se tática de guerra, para nós torna-se o principal motivo para ferir os Direitos Humanos fundamentais de dois cidadãos que prestam devidamente serviços ao país.
Ao ver o desespero do Sargento Laci, quando soube da chegada da polícia do exército na rede de televisão, ficou-me a impressão de uma inteligente tática ao vir a público assumir seu relacionamento homossexual para garantir seu direito primordial: o direito à vida. Vi nos olhos daquele rapaz um grito, um pedido de socorro. Não faria ele isso se não estivesse com sua vida em risco, se não soubesse das diversas conquistas que nós do movimento temos a duras penas conquistado, o sargento não faria isso se não soubesse que do dia 05 ao dia 08 de junho estaríamos reunidos em Brasília na I Conferência Nacional GLBTT para garantir políticas públicas de promoção e defesa à população GLBTT que ano após ano tem sido morta cruelmente e injustamente no Brasil.

A dor do sargento Laci tornou-se no programa da Rede TV! uma dor pública, pois sabemos o quanto as nossas Forças Armadas, que dirigiram por mais de trinta anos esse país sob uma violenta ditadura, são intolerantes às relações homossexuais em suas milícias. Intolerância tal só comparada às igrejas católica e evangélicas, as quais, por meio de seus respectivos papa e pastores, têm abominado e alimentado o ódio aos homossexuais. Também são comparáveis entre essas instituições – Forças Armadas e Igrejas – os tantos quanto forem possíveis de contar homossexuais masculinos e femininos que, por causa da homofobia e do medo à repressão, têm-se amontoado em armários de ferro e se escondido por baixo de batas e fardas. Esse casal, que ora torna pública sua relação homoafetiva, cansou de dividir esse armário com incontáveis que ainda se mantém por lá. Vieram a público por dois motivos: a busca da vivência plena de seu amor, tal como os amantes do Batalhão Sagrado, e a garantia de manterem seus direitos humanos fundamentais preservados, principalmente o direito à vida. Eles fizeram um clamor, um pedido de socorro, e graças a Deus, o CONDEPE, a Comissão de Direitos Humanos da OAB, o Sindicato dos Jornalistas, os Parlamentares do Senado e o Ministro dos Direitos Humanos Paulo Vanuchi ouviram e atenderam a tempo. Que a sociedade civil também faça parte desse grupo que ora presta socorro a esses dois valentes soldados, os quais combateram não um exército, mas uma homofobia que vai além de qualquer Força Armada.
O Batalhão Sagrado foi derrotado por Alexandre, quando ainda reinava sobre Macedônia seu pai Filipe II, em uma histórica batalha em que o rei de Macedônia tentava unir a Grécia contra a Pérsia. Diante dos corpos desses homens, Filipe ajoelhou e memorou-os, determinando que seu povo jamais esquecesse o amor com que aqueles homens do Batalhão Sagrado lutaram até a morte.
Que a sociedade e o movimento GLBTT possam honrar, apoiando determinantemente a luta desses dois combatentes, que naquele domingo deram um passo importantíssimo para mudar a história homofóbica de nosso país: Sargento Laci e Sargento Fernando.