O sentido comum das palavras é acrescido de um sentido próprio, cada vez que se encarna numa proposta pessoal; é por isso que a linguagem diz sempre muito mais do que diz. (…) este excedente de significados, estas entradas em circuito que de vez em quando põe em causa uma presença humana.
(Gusdorf, em Professores para que?, 1987, página 148)
A força viva do ímpeto pessoal não está nem na reivindicação, nem na luta de morte, mas na generosidade e no ato gratuito, ou seja, numa palavra, na dádiva sem medida e sem esperança de recompensa. (…)
(Emmanuel Mounier, em O personalismo, 1950, página 66)
Deixemos também um espaço para nossas irmãs ervas daninhas
(atribuído a Francisco de Assis, em biografia citada por Leonardo Boff)
Utopia eu sei. Já falaram bastante. “Leia os utópicos”, para que eu entendesse.
Mas hoje me lembraram: a feira de manhã. Ele me disse: “as pessoas gritavam os preços e as frutas, mas não era mais a propaganda, era como araras numa árvore”.
Ah, a gratuidade.
Lembrei-me dos gestos gratuitos que eu coleciono em silêncio alarmante.
São gestos que não têm um objetivo. E, como dança, só podem nascer em espaços vazios. Um e outro gesto e imagem que passam sem sentido para nós que só encontramos sentido naquilo que tem ordem e aparente sentido de progresso. É que o progresso tomou conta do pensamento não só pelas idéias abstratas e bem formuladas que nos chegam por todo anúncio, mas, sobretudo (melhor, embaixo de tudo) pelas formas concretas de viver – para cada cômodo da casa, uma função e um nome, e uma outra infinidade de coisas que têm uso aprisionado. Aprisiona os de dentro e os de fora.
Mas não. A gratuidade só nasce nos espaços vazios.
Lembrei-me de um gesto - uma das coisas mais lindas que já vi -, que aprendi com alguns caminhoneiros: durante uma viagem noturna, de cansaço, ao encontrar algum colega que viaja próximo, ainda em movimento apaga-se as luzes dos caminhões, e um e outro motoristas começam um balé (não conheço outro nome), um balé com as mãos e braços apagando e acendendo as mais de dez lâmpadas do caminhão, para distrair. Como um repente, um canta e o outro responde. É uma tal delicadeza possível.
Por que gritaram na feira? É propaganda? “leite condensado em fruta!” “não paga e não leva” “doce” “é isso aí” “é prácabar” “ai ai lá vem a chuva!” “óia que eu tô fresquinho” “ocê?” “eu não” “óia que tá fresquinho…” e o burburinho vira um canto gratuito. O Hermeto Pascoal também falou isso, sobre a conversa das suas irmãs, que virou passarinhos.
Mas é possível a gratuidade? Mesmo? Às vezes eu esqueço: sim, é. Aliás, necessária. Se não fosse, também encerrada estaria a presença humana, como a que falou Gusdorf: qualquer coisa que ultrapassa o significado das palavras e das coisas, para assumir uma feição propriamente inútil e pessoal.
Mas a dúvida sobre sua permanência entre nós é razoável. Pois a vida está toda pautada toda numa experiência alojada no capital. (Um vizinho aqui perto tem uma mesa, cadeira e máquina de escrever, todas de metal, estacionadas no jardim da frente, entre mato, e todos estão cor de laranja da ferrugem).
Entre mão e coisa, o instrumento agora se adapta, e se multiplica, multiplicam-se os nomes e as funções, as especialidades - variações ao infinito das necessidades tão poucas. E a gente se acaba, alternando entre a megalomania poderosa quando se vê do tamanho de todos os instrumentos, e a claustrofobia triste de se achar prisioneiro sem sequer lembranças de fora.
A experiência se tornou rara. E continua escasseando. Tanto construímos para auxiliar-nos, que não se acha mais o atrito criativo nos caminhos da necessidade.
Acontece que, essa esquizofrenia cotidiana, não é individual. E assim coletiva, constrói condições mais, para outros ainda. Aparta-se mais um bocado.
Tem volta? Tem não.
Mas é nesses espaços gratuitos que me penduro para achar que o que temos não é esperança, não é futuro, não é volta, nem progresso, é um tempo de respirar. Às vezes. Uns mais, uns menos.
E aqui eu paro. Eu me acheguei à cerca e o louco dançou na minha frente, eu olhei admirada. Quero tenha força para construir, sempre que deparar-me com pedras, lugares vazios. Muitos. Muitos, espalhados. Porque dançar, cantar, escrever, dormir, carinhar, admirar, só acontece assim, no vazio entre um lugar e outro. Onde se encontra um gesto com a admiração de outro. Ali é que pode morar uma outra coisa, umas outras coisas.