Historico

O CORSA e a Educação

O CORSA iniciou em 2002 seus trabalhos na área de educação. Naquela época, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos (SEDH), então subordinada ao Ministério da Justiça, realizou uma Câmara Técnica com o objetivo de traçar um quadro diagnóstico da situação dos GLBTs no Brasil. Como o CORSA contava com muitos educadores, surgiu a proposta de organizar uma formação para professores através do projeto “Educando para a Diversidade – os GLBTs na Escola”, financiado pela SEDH. Era uma iniciativa pioneira, tanto quanto a gente saiba, pois até aquele momento só tínhamos notícia de um ou outro militante que dava uma palestra ou fazia uma fala para estudantes, a convite de um professor ou diretor mais aberto ou esclarecido sobre o tema. Ou seja, era uma ação sistemática, que pretendia entabular um diálogo com o ambiente educacional. E a novidade é que passávamos a refletir sobre diversidade sexual, ao invés de simplesmente falar sobre homossexualidade, em geral apresentada como algo exótico, uma “atração de circo”. Ao tratar das imensas possibilidades de variação do desejo sexual, estávamos falando de todos e todas, fossem hetero, homo ou bissexuais. E tínhamos como pressuposto a idéia de que ninguém jamais poderá entender o desejo do outro se antes não compreender o seu próprio.

O projeto “Educando” era uma iniciativa piloto, destinada a 25 professores da rede municipal de São Paulo. Nossa entrada só foi possível porque Marta Suplicy, figura emblemática da nossa luta, era a Prefeita da cidade. Isso nos abriu muitas portas e, em parceria com os programas de prevenção de DST/Aids, fomos chamados a ministrar “Oficinas da Diversidade Sexual” para mais de 5.000 profissionais de educação em apenas dois anos.

Por meio desta ação, o CORSA tornou-se conhecido – e respeitado – pela seriedade de seus integrantes e pelo alto nível da discussão que propunha. Afinal, logo de início aprendemos que, quando colocado na posição de ouvinte, o professor age igualzinho a seus alunos e fica testando o palestrante! Por isso, nosso primeiro grande desafio foi formar uma equipe (éramos cerca de 15 pessoas) com preparo suficiente para transmitir uma mensagem que de um lado combatia o preconceito (em todas as suas formas) no ambiente escolar e, de outro, propunha uma visão renovada e arejada das relações de gênero (criticando o machismo, por exemplo) e da sexualidade (desvinculando-a das concepções naturalizantes que se apóiam no fundamentalismo religioso).

Por isso, não é que a escola seja homofóbica “em si”. O que acontece é que a instituição educacional não é uma “bolha” fora da sociedade. Ao contrário, tudo o que acontece ao redor, repercute nas relações de ensino e aprendizagem. E, no caso, das relações de gênero, a escola acaba sendo um lugar onde se reproduzem os estereótipos daquilo que se acredita ser “o masculino” e “o feminino”. Pegue por exemplo o que a escola considera ser um bom aluno e compare com a noção de boa aluna: veremos que há expectativas diferenciadas em termos do comportamento. É visto como “natural” que o menino seja irrequieto e a menina seja dócil e fique sentada o tempo todo, que o caderno dele não seja tão asseado e organizado quanto o dela… e por aí vai. Evidentemente essas imagens se prolongarão e atingirão outras dimensões como as de filho e filha, irmão e irmã, namorado e namorada, marido e esposa, pai e mãe, trabalhador e trabalhadora e até as de cidadão e cidadã!

Em anos de reflexão sobre o preconceito aos homossexuais, o CORSA chegou a conclusão que se trata menos de uma questão de sexualidade e muito mais um problema de transgressão de gênero. Quando um garoto de 7 anos briga com seu colega e o chama de “viado”, ele não tem na cabeça a proibição da relação sexual entre dois homens. O que ele usa para ofender o outro é a transgressão de gênero, ao dizer que o outro não é homem de verdade e associando-o às atitudes das mulheres, pois em nossa sociedade, de modo geral, o feminino é sempre inferior ao masculino.
Então, antes de tratar da homofobia propriamente dita, a escola tem que fazer um trabalho sério, sistemático, incessante, de combate ao sexismo. Tem que modificar profundamente as concepções veiculadas ao que é ser homem e o que é ser mulher, propondo sempre a igualdade entre os sexos – de maneira concreta e não apenas abstrata. Mostrando que as mulheres podem ser cientistas, engenheiras, administradoras de empresas, técnicas, advogadas… Incentivando as alunas a se expressarem em público e a não serem valorizadas apenas por sua aparência física, mas também por suas habilidades intelectuais e morais. Que as tarefas domésticas – cuidar dos filhos, limpar a casa, preparar as refeições – podem e devem ser repartidas por toda a família e não são exclusividade do sexo feminino. A escola pode ser construtora de uma nova sociedade na medida em que for crítica das hierarquias sociais naturalizadas e propuser novos padrões de relação entre homens e mulheres.

Mas é claro que, chegando depois à questão da sexualidade, todo um trabalho precisa ser feito também. Afinal, o rapaz que se descobre tendo atração afetiva e erótica pelo sexo masculino ou a garota que gosta de outras garotas têm uma trajetória muito sofrida dentro e fora da escola. Não têm referências ou modelos positivos que possam nortear a construção de suas identidades, suas escolhas, suas relações amorosas. Em suma, a escola precisa aprender a falar dessas pessoas também: os gays, as lésbicas, travestis, pessoas trans e bissexuais. Sair do exótico e do folclórico e inserir estas formas de ser e de viver no rol das existências legítimas, como caminhos possíveis para a felicidade e o amor!

Em nossa experiência que já chega a seis anos de atividades, o CORSA constatou que – ao menos entre os professores – existe mais desinformação do que preconceito em relação aos homossexuais. É o velho medo do desconhecido, que nos assusta quando fica perigosamente perto de nós. E, claro, ao lidar com ele na forma de piadas e chacotas, ninguém julga estar discriminando: “é apenas brincadeira…” Por isso, como enfrentar as situações concretas?

Em 2004, o CORSA teve a felicidade de entabular uma parceria com outra ONG de São Paulo, a Ecos – Comunicação em Sexualidade, especializada na produção de materiais audiovisuais e didáticos com larga experiência em projetos sociais. Naquele ano, propusemos e tivemos aprovado pelo PROSARE – Programa de Direitos Sexuais e Reprodutivos, do Cebrap com recursos da Fundação MacArthur (EUA), uma proposta abrangente: além da formação de professores, faríamos também um diagnóstico de entrada (com grupos focais com educadores e questionários para estudantes) e produziríamos um material de apoio, uma espécie de pequeno guia com sugestão de atividades. Nossa percepção era a de que as antigas “Oficinas de Diversidade Sexual”, que eram dadas em dois encontros de 3h cada uma, eram ótimas para sensibilizar os profissionais sobre o tema, mas insuficientes para mudar mais profundamente sua visão sobre o tema e, acima de tudo, incapazes de modificar suas práticas pedagógicas. Eis porque esse projeto, chamado “Diversidade Sexual na Escola: novas práticas educativas para a sexualidade e cidadania”, tinha como elemento central uma capacitação de 40h, realizada em 10 encontros quinzenais de 4h cada um, na Zona Norte de São Paulo. Intuitivamente descobrimos que esse período mais extenso de contato com a discussão – teórica e prática – sobre gênero e sexualidade, a partir das relações que ocorrem na escola, produzia resultados mais fortes e duradouros. E a professora ou professor que passava pelo curso tornava-se, de fato, uma referência sobre o tema na sua unidade de trabalho.

No ano seguinte, em 2005, como resultado do Programa Brasil Sem Homofobia, o Ministério da Educação (MEC) abriu edital para projetos e, em parceria, apresentamos o “Convivendo com a Diversidade Sexual na Escola”, para ser executado na Zona Sul, dando início a um saudável rodízio entre as regiões da imensa e populosa capital paulista. Nesta ação, passamos a contar com o apoio da FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, autarquia do governo estadual, que financiava a ajuda de custo aos professores participantes. O resultado foi inegável: dos 160 educadores que se inscreveram no início do curso, 152 o concluíram satisfatoriamente. O ponto alto foi o concurso de cartazes, produzidos por estudantes dos professores. Foi a forma que encontramos para aferir de que maneira a diversidade sexual estava chegando na ponta, na sala de aula e nos surpreendemos com a qualidade das imagens.

Em 2006, um novo projeto foi selecionado em edital do MEC, desta vez para execução junto à Diretoria de Ensino Centro-Oeste, onde a receptividade e comprometimento tanto da dirigente quanto de seus auxiliares significaram um efetivo apoio ao curso e nos permitiu uma ação ainda mais sólida e eficaz.

Contudo, problemas ocorridos na tramitação das verbas destinados a estes projetos – no âmbito dos órgãos federais – acarretaram atraso no repasse dos recursos. A falta de empenho e morosidade para solucionar as dificuldades deixou transparecer que o combate à homofobia ainda não transformou de fato em elemento prioritário para elevar a qualidade da educação no Brasil pela busca de relações mais saudáveis e democráticas no seio da comunidade escolar. Além disso, postas sob suspeição pela irregularidade administrativa e financeira de algumas, as ONGs – em sua totalidade – deixaram de contar com o apoio das autoridades governamentais. Assim, em 2008 não um único projeto financiado para esta temática. As conseqüências são previsíveis: o ainda incipiente acúmulo dos últimos anos certamente se perderá pela falta de continuidade das ações. Além disso, até o momento o MEC não realizou nenhum encontro coletivo com os executores destas formações docentes para que as equipes pudessem compartilhar as conquistas que lograram e analisar com serenidade os obstáculos que têm enfrentado.

Falta, de fato, uma real e efetiva política pública no campo da educação que se proponha a combater o sexismo e a homofobia que os sistemas de ensino produzem e reproduzem cotidianamente, até pela ausência de qualquer iniciativa sistemática e global de reflexão e atuação sobre estas questões. Sequer de longe, os cursos de licenciatura (que formam novos professores) estão atentos ou abordam as relações de gênero e a sexualidade como elementos cruciais do desenvolvimento integral de alunos e alunas. As poucas iniciativas existentes são pontuais e provisórias. Existem hoje, aqui e acolá, mas ninguém garante que continuarão no próximo período.

Resta a esperança trazida pela convocação, pelo Governo Federal, da I Conferência Nacional de Políticas Públicas para GLBTs, a se realizar no primeiro semestre de 2008. Será um momento privilegiado em que gestores governamentais, parlamentares e operadores do judiciário se encontraram – frente a frente – com representantes do movimento social organizado para, diante de um diagnóstico de profundas lacunas, apontem para soluções concretas de curto e longo prazo no atendimento das legítimas demandas da população de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, elevando-as à condição de plena cidadania.

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